Frank Ocean, Curren$y e a nostalgia através de retrovisores

by - 22 outubro


Preciso confessar que talvez eu esteja levemente obcecada com 2011. Parece que toda vez que sento para escrever minha opinião sobre algo que ninguém pediu, somente projetos lançados nesse ano me vem à cabeça. 

A verdade é que muitos álbuns e mixtapes de 2011 me acompanharam fielmente nos anos seguintes e, quanto mais velha eu fico, mais me encontro voltando para o que eu ouvia com frequência antigamente. 

Entre os trampos lançados nessa época que mais me marcaram, a mixtape de estreia do Frank Ocean, “nostalgia, ULTRA”, e o quinto álbum de estúdio do Curren$y, “Weekend at Burnie’s”, sempre vão ter um lugar especial nas minhas playlists. 

Reviver esses projetos depois de um bom tempo me fez perceber o quanto eles conversam entre si. Tem algo extremamente confortador  e ao mesmo tempo deprimente  em lembrar de momentos que nunca mais vão voltar, e o que “ULTRA” e “Burnie’s” faz é justamente escancarar esse sentimento de nostalgia de duas formas diferentes. 

Em 2016, um estudo da Universidade de Southampton, na Inglaterra, mostrou que a nostalgia pode aumentar a vitalidade e te deixar mais preparado para lidar com o presente e o futuro. Tim Wildschut, um dos pesquisadores do estudo, descreveu a nostalgia como uma “resposta imunológica psicológica”, já que geralmente ficamos nostálgicos quando estamos mais tristes, solitários e ansiosos. 

Além da nostalgia, os dois projetos também compartilham mais um tema em comum: carros



Curren$y - ou Shante Scott Franklin para os mais íntimos - sempre incluiu carros em suas letras e capas de álbum, é sua marca registrada desde os tempos do Datpiff, mas a maioria das músicas sobre Mercedes, low-riders e rolês com o teto-solar aberto não transmitem melancolia e saudade como as do “nostalgia, ULTRA”.

O melhor exemplo disso está em “#JetsGo”, a faixa que abre o álbum, onde fica nítido que o foco dele é no que está por vir, não no que já foi.

“Murcielago green, just scored that Ferrari
But I still got them Lamborghini dreams”

Outras tracks como “Televised” e “This Is The Life” narram um lifestyle vivido, em sua maioria, dentro de carros e estacionamentos. Faixas como “She Don’t Want a Man” tem o beat um pouco mais angustiante - tem em alguma coisa na ambientação dessa melodia que me deixa com uma espécie de dejá-vu muito embaçada, como uma memória tão antiga que não consigo distinguir se realmente aconteceu ou se foi imaginação minha, se é que isso faz sentido.


O “nostalgia, ULTRA” já é um pouco mais sutil nessa questão e não tem uma narrativa com tantos detalhes explícitos como a de Shante, então tive que recorrer a outras fontes.

Em uma entrevista à Complex, Frank Ocean falou sobre a BMW laranja de 1980 na capa da mixtape: 

“Quando eu fiz a arte da capa depois que masterizamos, eu estava me sentindo do mesmo jeito. Esse é meu carro dos sonhos. É meu carro dos sonhos já faz um tempo. É uma E30 M3. É minha parada. Eu era uma criança que tinha diversos pôsteres de carros e garotas de biquínis na minha parede quando estava no ensino fundamental.”

“Strawberry Swing” introduz o tema de toda a mixtape sampleando Coldplay. Quando colocamos “ULTRA” ao lado do “channel ORANGE” e “Blonde”, conseguimos perceber nitidamente o amadurecimento do processo de aceitação da vida adulta de Ocean. Poucos artistas conseguem capturar essa sensação de ver sua infância e inocência escorregando pelos seus dedos como ele. 

Faixas como “We All Try” e “Lovecrimes” tentam se agarrar em cordas frágeis de pureza e ingenuidade. “Swim Good”, um dos singles do projeto, carrega grande influência melódica do 808s & Heartbreak, trazendo uma vibe um pouco mais pesada ao projeto graças a seu conteúdo lírico.



“American Wedding”, que é basicamente um remix de “Hotel California”, da banda The Eagles, é sobre dois adolescentes aventureiros se casando, mas o relacionamento desaba com a mesma rapidez que começou. Frank canta que prefere ficar sem seu carro - que é basicamente tudo que ele tem - do que ter seu coração partido.

“Well, you can have my Mustang, that's all I've got in my name
But Jesus Christ, don't break my heart”
  
Não posso jogar na rodinha “Frank Ocean e carros velhos que eu nunca ouvi falar” sem mencionar “Acura Integurl”. O título é um trocadilho com o carro Acura Integra GR-S de 1992 e captura deliciosamente o sentimento de nostalgia, mesmo que seja por menos de dois minutos. 

“But we're both a long way from home
We got the windows down, the radio's on, always”

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Eu gosto muito do Outro dessa track e como, de certa forma, parece uma carta de despedida:


Todo esse amor e obsessão de Ocean e Curren$y por carros parece fazer muito mais sentido quando recorremos a estatísticas. Uma pesquisa recente feita pela Ikea Group mostra que 45% dos entrevistados de 22 países escolhem ir para seus carros quando buscam privacidade, conforto, segurança e intimidade, enquanto 72% preferem seus quartos e 55% optam por banheiros.

Um outro estudo aponta que millennials americanos estão cada vez mais interessados em comprar veículos antigos devido a questões financeiras, como débitos estudantis. 

Apesar de se expressarem de formas diferentes, Curren$y e Frank Ocean parecem acumular memórias significativas e importantes dentro de carros. Enquanto “Weekend at Burnie’s” olha atentamente para a estrada à sua frente, ignorando os sinais vermelhos e as placas de “pare”, “nostalgia, ULTRA” contempla o reflexo de memórias ficando cada vez mais distantes no retrovisor. 

Assim como eles, eu também me apego ao passado, muitas das vezes encontrando consolo nesses trampos nostálgicos em tempos difíceis. E a verdade é que eu sempre vou sentir falta de determinadas épocas da minha vida, e tudo bem se para conservar essas memórias eu tenha que joga-las com algumas bagagens mais pesadas no porta-malas. O que eu consigo entender hoje é que parar no meio do caminho nunca vai ser uma opção. 

Escrito por @heavygloomz

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