Entrevista: nabru explica porque prefere falar de amor e adentra o processo criativo da mixtape que derrama a cadência da auto-descoberta

by - 19 setembro

A MC mineira nabru vem agraciando o rap nacional com seus trabalhos e performances desde que se entende por gente, mas há um tempo o público pôde fazer parte disso por meio do lançamento do EP "Marquises e Jardins", divulgado em janeiro, e agora pela mixtape "porque eu prefiro falar de amor", lançada em 7 de agosto.


Cria da PPL, quebrada da turbulenta Belo Horizonte, nabru já assumiu suas responsabilidades desde pequena, não se limitando a ficar dentro de casa esperando as coisas acontecerem. Assim, seu trabalho no hip-hop já começa em si mesma, pela resistência e atitude revolucionária que teve ao continuar perseguindo seus sonhos. 

Ela nasce Bruna Hellena, mas tromba nabru em uma esquina e começa a falar de poesia, como se as duas tivessem tempo pra jogar papo fora enquanto o mundo estoura ao seu redor. Mas nenhuma conversa foi em vão. Bruna foi se enxergando em nabru até perceber que nabru sempre esteve ali, nutrida por uma vontade avassaladora de se expressar por meio da arte.

Foto: @berenonli

E de todo esse encontro surge uma das maiores MCs do rap nacional atual. Não pelas letras aguçadas em fervência lírica, não pelos flows originais que cortam os sentidos e atingem as sinapses, não pelas beats eletrocardiograma em preto fosco, mas também por essas letras, flows e beats. Afinal, isso conta, mas não sustenta o seu lugar no hip-hop se não tiver o que mais está presente em nabru: a verdade, como uma mola propulsora que move corpo e alma em busca de representar a realidade e fazer na prática o que aparece nas músicas para todo mundo. 

nabru é Bruna, Bruna é nabru. Não tem uma personagem fazendo rap de massagem, criando hits que findam em dois minutos, carregam dois k de likes e são esquecidos pelos seus próprios criadores. nabru não move a cena, vai com ela, itinerante, arrancada do solo do sertão de pedras a fim de brotar na imensidão do mundo pelas palavras, por si mesma e pela sua comunidade. 

“minhas orações, conversar com o espelho, meus medos e minhas coragens também.”

É assim que nabru introduz a linha de pensamento que deu origem à mixtape "porque eu prefiro falar de amor". Mas antes dela veio o balanço geral, o despertar das marquises e jardins, as quatro escadas utilizadas para cuspir tinta e sentimento nas paredes.



E depois disso tudo, entre parcerias e sempre junto de seus amigos, nabru ainda faz uma ode aos que foram e os que ficam com Dro, delineando a metástase artística que alimenta o discurso da liberdade, sempre imponente no Brasil que ainda olha torto para o rap e ignora sua força para os manos e minas de quebrada. 



Mas depois disso tudo, a mixtape "porque eu prefiro falar de amor" chamou a atenção por algo a mais. As dez tracks com beats em estilos diferentes aliadas a rimas sobre os mais diversos assuntos não vieram falar do amor no sentido romântico. Afinal, nabru, conta pra gente por que cê prefere falar de amor? Que amor é esse? 

São essas questões que motivaram a V!$H Midia a realizar a entrevista com a nabru sobre a mixtape, e  as respostas você confere agora:


VI$H: Como foi o processo de produção e criação artística da mixtape "porque eu prefiro falar de amor"? 

nabru - A mixtape tem um monte de fragmentos de coisas que eu escrevi, anotei, pensei e senti durante o processo de construção do EP "Marquises e Jardins". Eu tava construindo uma coisa concreta que falava praticamente sobre um tema só, apesar de abordar vários. Era um projeto mais compacto, e a mixtape não, ela reúne vários fragmentos. Depois eu fui perceber o que esses fragmentos tinham em comum e os pontos deles que tinham me ajudado a crescer e evoluir. É tipo um diário de bordo sobre as últimas evoluções da minha vida. 

VI$H: O que mudou de "Marquises e Jardins" para "porque eu prefiro falar de amor"? Teve algum estilo, sonoridade ou conceito que você arriscou nessa nova mixtape? 

nabru - No "Marquises e Jardins" eu tava descobrindo muitas coisas ainda e prevaleceram coisas que eu já sabia, então eu testei menos os meus limites. E tem um outro conceito que é tipo, eu fiz na minha casa né, eu mandei as vozes pro Sergio Estranho, ele mixou e masterizou, mas eu fiz na minha casa, no meu fone de ouvido. E aí foi um processo de reflexão interna, acho que o EP é muito externo, o nome dele já fala disso. Ele fala da rua, fala de outras pessoas, fala de sentimentos alheios, fala pouco de mim. O "porque eu prefiro falar de amor" é um bagulho mais interno. 

Agora sobre estilo e sonoridade, eu acho que todos os sons vieram mais densos, meio rock n roll (risos), e é um outro momento, um outro sentimento, mas eu deixei acontecer. Essas beats chegaram pra mim e quando eu vi todas as guias prontas e as letras feitas, elas pareciam fazer parte de uma coisa muito única, e isso é bem diverso. A não ser pelo brescia que assina duas beats, cada uma das beats da mixtape é bem diferente, mas eu acho que elas conversam muito entre si, então foi tudo pura coincidência, não sei exatamente como classificaria. Rap gospel, uma banda de rock gospel chamada, sei lá, “resgate”, (risos). 


VI$H: A nova mixtape se distancia um pouco do EP, principalmente pelas temáticas e lírica, o que combinou com um flow mais rápido e beats mais transgressoras. Ainda sim, você manteve um pouco a relação com o trabalho anterior. Qual o significado da nova mixtape para sua nova fase na música? 

nabru - Eu acho que eu ainda não sei dizer o significado da minha fase na música. Mas eu fiz uma coisa que correspondia à nova fase da minha vida e agora eu quero ver. Eu já tô escrevendo outras paradas que já estão bem diferentes também, então a mixtape com certeza é um divisor de águas no sentido emocional pra mim. Mas eu ainda vou descobrir que que isso vai significar na minha carreira.

Foto: @berenonli

VI$H: A arte em suas diversas facetas está muito presente nas canções tanto do EP "Marquises e Jardins" quanto na nova mixtape. A capa, por exemplo, feita por Magu, dá um tom ainda mais atrativo para o trabalho, combinando com as músicas e todas as suas etapas. Na nova mixtape, qual olhar sobre a arte você quis trazer?

nabru - Eu desconheço uma fase da minha vida em que eu não tentei construir formas expressivas através da arte para dizer o que eu sinto sem dizer o que eu sinto. Sempre fui meio ruim de falar a real pras pessoas, sempre fui muito sincera, mas isso é diferente de falar as coisas que você realmente sente, então eu sempre usei a arte pra isso. E eu sempre escrevo as coisas esperando que as pessoas escutem e me entendam também. As pessoas específicas e as não específicas, porque é a única forma que eu tenho mais afinidade de falar sobre as coisas. 

Eu coloco na minha letra quase todas as paradas que eu tive a oportunidade ou que eu gosto muito de fazer e a partir daí eu busco n formas de expressão, mas não só na música. Eu não comecei me expressando na música. Por exemplo, eu botei uns arquivos de desenhos em pdf para download no bandcamp. O processo criativo que eu tive pra fazer esses sons é o mesmo processo criativo, na mesma linha de raciocínio, que eu tive pra fazer essas colagens, desenhos e intervenções. Então eu passei tudo isso pro Magu, passei as letras todas pra ele, depois passei a mixtape também, mas só com as letras ele já tava fazendo aquilo. Ele leu, começou a fazer a capa e é isso. A gente também teve várias vivências juntos e eu gosto de trabalhar com as pessoas que eu conheço. É muito bom poder contar com meus amigos também, a arte também é isso né, o hip-hop também é isso. 


VI$H: Mesmo com o título sugestivo, a mixtape aborda diferentes temas que se amarram por situações cotidianas e reflexões pessoais. Apesar disso, dá para perceber que o amor é tratado por outras visões no seu trabalho. Afinal, por que você prefere ou não falar de amor? Qual o sentido do nome da mixtape? 

nabru - Praticamente tudo que está relacionado com a arte está um pouco relacionado com amor também, e meio que tudo que a gente faz é por amor mesmo. Eu tava até vendo o Black Alien dando essa ideia no "Manos e Minas". E eu acho que é isso mesmo, fiquei refletindo muito sobre isso e ajudou até a fazer mais sentido pra mim. Eu juntei todas essas letras, li tudo rapidamente e pensei “Vou lapidar isso aqui e fazer uma mixtape.”. Enquanto eu fui lendo, fui lembrando do sentimento meio amargo na boca e cheguei à conclusão de que era isso. Ali estavam reunidos todos os motivos que explicam porque eu fiz o "Marquises e Jardins", que de certa forma romantizava várias paradas, mesmo que falasse né, "o crime não é bonito", é um EP bonito ainda assim. 

Acho que o "porque eu prefiro falar de amor" nem é pra ser bonito, é sobre o dia que você sai de casa só pra fazer as fita mesmo, e você nem olha no espelho não, tá ligado? Só vai pra rua desembolar suas questões no lugar de arrumar tudo, sabe, emperiquitar pra sair pra rua, acenar pros outros (risos). Quem é de BH sabe quê que pega, sempre tem um conhecido. E aí é isso, quem gostar, gostou, e várias pessoas não vão gostar também provavelmente, e eu espero que não gostem mesmo, porque como eu disse, é um divisor de águas na minha vida mesmo. Eu tô tomando várias atitudes e assumindo várias paradas tanto na minha vida quanto na minha música e nas minhas letras que eu espero que faça as pessoas entenderem mesmo quê que pega. 

Espero que elas me conheçam um pouco, porque eu percebo que o foda de ser artista é que você dá sua arte e a pessoa interpreta da forma que ela quiser, a arte é livre pra isso também, pra pessoa sentir o que ela quiser sobre. Mas a pessoa tenta saber também quem você é, ou acha que sabe, que é a fita que eu falo em várias tracks sobre isso. É isso mano, isso aqui sou eu de verdade, poucas vezes vocês me viram de verdade. Eu ajo como se me conhecessem de verdade e agora eu espero que seja o primeiro passo para que realmente conheçam. A arte também tem muito a ver com a forma como a coisa vem de dentro pra fora, é tipo um processo filosófico através da arte pra achar quem você é dentro de você mesmo. 

Uma psicóloga falou pra mim que tem tipo uma Bruna de quatro anos que passa pelo seu primeiro trauma e dentro da minha cabeça ela tá perdida, chorando confusa, e que o processo de cura era sobre eu entrar dentro da minha cabeça, seguir o barulho do choro, achar essa criança e dar a mão pra ela. Essa mixtape foi esse processo pra mim. Eu tirei a criança traumatizada da minha cabeça sobre várias questões. Então é sobre isso, e eu espero que ajude várias pessoas a tirar essa criança da cabeça também ou pelo menos entender que a partir de agora temos que agir como adultos.


Foto: @berenonli


A partir desse papo com a nabru, deu para perceber que a mixtape, mais que falar sobre amor, nasce dele e o perpetua por todos os cantos. "Muito amor, muito amor, cê tá ligado? Você é o que precisa mais de amor.". E não é amor de mãe, amor romântico ou qualquer outra versão fantasiosa sobre amor. É amor pelo que faz, pelo que acredita e por si mesmo. A partir disso, tudo é uma questão de amor, assim como a nabru fez em toda sua vida e faz no seu trabalho.

Guiada pelo ideal de que sua causa seja justa, nabru segue sua trajetória na vida e no rap, sempre guiada pela verdade, mesmo que tenha que falar isso de novo e de novo, até que todo mundo entenda que o rap, mais que tudo, é sobre realidade e não sobre pensamentos construídos no plano das ideias que são destroçados pelas atitudes na prática. "Vocês também tão vendo isso?" A gente tá vendo, pode ter certeza.

Matéria por: @kaleidoskyler





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