Decifrando 'House of Balloons': Como o uso de samples levou a visão de The Weeknd para outro nível

by - 01 abril


2011 foi um puta ano decisivo para o R&B. Foi o ano que Frank Ocean lançou o “nostalgia ULTRA” e a Beyoncé o “4”, dando uma direção mais alternativa e experimental para o gênero no mainstream. Também foi o ano em que The Weeknd apareceu das profundezas do underground lançando três mixtapes gratuitas no Youtube. 

Hoje, com milhões de álbuns vendidos mundialmente, quem conheceu Abel Tesfaye nos últimos dois ou três anos mal consegue acreditar que um dia ninguém sabia quem ele era, como era seu rosto ou sequer seu nome verdadeiro.

The Weeknd lançou uma trilogia de mixtapes em completo anonimato, e só fomos conseguir descobrir mais sobre ele depois do lançamento do álbum “Take Care”, do Drake, onde ele aparece como colaborador em uma das faixas e como co-produtor na maioria da músicas.

O primeiro projeto lançado, — que em 2012 ganhou uma versão remasterizada — “House of Balloons”, é considerado até hoje como o melhor trabalho dele, ganhando milhares de elogios e análises pelas letras explícitas e instrumentais complexos ao longo dos anos. Infelizmente, eu tenho a impressão de que o uso de samples para construir a narrativa e sonoridade desse trampo não é tão apreciado quanto os outros elementos utilizados, então nada mais justo do que fazer isso agora. Antes tarde do que nunca, né?

“High For This” abre a mixtape como uma espécie de síntese do que estaremos prestes a experimentar durante todo o projeto. Apesar de não samplear nada, a track é um convite para a vida que Tesfaye experimentava naquela época, e esse ticket nos leva aos tormentos e euforias dele durante todo o “Trilogy”.

“What You Need” se contrapõe com o beat denso de “High For This”, tendo uma pegada bem mais light e mainstream enquanto sampleia o clássico “Rock The Boat”, de Aaliyah. A temática em ambas das músicas é idêntica e bem óbvia, então não preciso entrar em muitos detalhes.


É somente a partir da terceira faixa que a mixtape começa a ganhar sua própria originalidade e rumo.

“House of Balloons/Glass Table Girls” sampleia brutalmente “Happy House”, da banda inglesa de pós-punk Siouxsie And The Banshees. Em uma entrevista de 1983, a vocalista Siouxsie Sioux, quando perguntada sobre o significado da música, disse: “É sarcástico. De um jeito igual a televisão, todas as mídias, é como propagandas, a família perfeita onde é comum que os maridos batam nas esposas. São famílias doentes na verdade. A projeção de todo mundo sorrindo, cabelo loiro, raios de sol, comendo manteiga sem engordar e todo mundo é perfeito”. 

Em “House of Balloons”, The Weeknd utiliza a mesma ideia, mas a entrega de uma forma um pouco diferente. Enquanto “Happy House” critica claramente as mentiras e ilusões que a mídia prega para nos manter felizes e anestesiados, “House of Balloons” é sobre cavar a própria cova num lifestyle libertino onde as drogas, festas e sexo que providenciam as mentiras e ilusões. 

No final da letra, Sioux canta sobre “estar olhando pela janela”, chegando a conclusão de aquele lugar feliz, divertido e seguro não passa de uma ilusão, e que no fim ela precisa enxergar o mundo através de uma ótica realista. Essa metáfora da janela também é usada no segundo verso de “Balloons”, mas com um contexto relacionado ao vício: “Se dói para respirar, abra uma janela / sua mente quer ir embora, mas você não pode ir.”


É importante mantermos em mente a forma como a mixtape flui para enxergar a imagem maior. Por exemplo, a faixa seguinte é “The Morning”, que tem um beat muito mais calmo, com riffs lindíssimos de guitarra e uma melodia muito mais suave em comparação com a agressividade de “House of Balloons” e “Glass Table Girls”. É uma continuação perfeita para a perdição da faixa anterior pois aborda os mesmos temas, porém com muito mais profundidade. São cinco minutos da voz suave de Tesfaye narrando pedaço por pedaço um estilo de vida que muitos de nós não precisamos necessariamente vivenciar para entender. As descrições detalhadas são o suficiente para fazer o ouvinte imaginar a história que ele expõe vividamente. 

“The Morning” é a parte da narrativa onde o protagonista está em êxtase, e aí vem “Wicked Games”, que é como estar se masturbando, prestes a gozar e sua mãe abrir a porta do quarto. 

“Wicked Games” é a primeira faixa da mixtape a mostrar o lado negativo desse dia-a-dia tão tentador e prazeroso, a primeira brecha de realidade e heartbreak que temos. E por acaso foi também o primeiro som dele a fazer sucesso — todo mundo sabe que música triste sobre amores destruídos é o que vende. Aliás, assim como “The Morning”, “Games” não usa samples.

A distopia de drogas e festas retorna novamente com “The Party & The After Party”, e dessa vez traz a sample de “Master of None”, da duo de shoegaze/dream pop Beach House. Se foi só o belíssimo instrumental que levou os produtores e compositores Illangelo e Doc McKinney — as forças criativas da estética e sonoridade do “Trilogy” inteiro — a samplearem esse clássico eu não sei, mas a correlação entre os dois sons na letra é bem esperta. Resumidamente, “Master Of None” — que em português significa “mestre de nada” — é sobre pular de relacionamento em relacionamento constantemente, mas sem ficar tempo o suficiente para que se torne algo sério, íntimo e profundo.


“The Party & The After Party” usa o verso “você sempre vai para as festas / para arrancar as penas de todos os pássaros” como refrão — o que é bem interessante se você parar para pensar na constante utilização de metáforas com pássaros feitas durante toda a trilogia. “The Party” transforma a melancolia de “Master of None” em algo sensual, dopado e burlesco. A transição sutil da primeira parte para segunda também serve para dar uma nova direção, mesmo que a sample desapareça, o beat desacelere e Tesfaye continue cantando sobre foder a noite inteira. No finalzinho da música conseguimos entender melhor quando o beat muda novamente para dar espaço para a próxima faixa.

“Coming Down” (descendo, em português) é sobre a rebordosa, a ressaca irritante e aquele momento quando a sensação gostosa das drogas é substituída por ansiedade, solidão, tristeza e a vontade de usar de novo. É nessa hora momentânea que Abel percebe que ele provavelmente é apaixonado por essa determinada pessoa, e é aí que entra a sample da fala de um dos personagens do anime “Fate/Stay Night”: “Eu queria que você não me causasse problemas. O que você está fazendo me deixa desconfortável. Você é covarde, Shirou. Você descobriu meu passado e usou contra mim várias vezes, mesmo que você saiba minha resposta, mesmo que você saiba meus pecados.” 

Depois da descida, Abel, Illangelo e Doc sobem de novo até o pico mais alto. “Loft Music” retorna com o tópico de drogas, festas e claro, putaria. Beach House aparece mais uma vez como sample, dessa vez com a música “Gila” — enquanto eu escrevia essa matéria, percebi como as duas faixas da tape que mais explicitam o lifestyle de festa samplearam Beach House. Pode ser mera coincidência, mas se não for só torna o projeto ainda mais intrigante. Especialmente porque “Gila” fala sobre não ficar preso ao passado e a letra de “Loft Music” é inteira sobre se drogar, ops, viver no momento, no presente. 


A última track do projeto, “The Knowing”, é quando Tesfaye percebe que a mulher que ele ama o traiu, enquanto elementos de “Cherry-Coloured Funk”, da banda escocesa Cocteau Twins, — uma música que fala sobre ser motivo de piada e pena — ressoam nitidamente em mais um beat harmonioso feito por Illangelo e McKinney. 


“The Knowing” fecha a mixtape que oscilou entre luxúria e infelicidade em todas as faixas. Se The Weeknd era o vilão ou a vítima de seu próprio ambiente não fica muito claro, entretanto, o que fica claro como o dia é que tudo no “Balloons” foi bem pensado, e que nesse caso talvez coincidências realmente não existam. 

"House of Balloons" é um ótimo exemplo do que uma produção meticulosa pode atingir e expressar através de meras samples. 

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