Eu tenho esse amigo que dorme num estúdio

by - 18 janeiro

Ilustração por Felipe Pessanha @drpessa

Meu álbum favorito é interrompido pelo silêncio. O bolso da calça vibra.

- Mafra, onde cê tá?

- Pô Beto, tô saindo de uma entrevista de estágio, do lado da sua casa.

- Chega aí, tô gravando uns manos aqui.

A música volta a tocar no fone imediatamente, enquanto caminho pela barragem Santa Lúcia em uma tarde de quarta-feira. Aproveito para sintonizar em outro artista, abro o aplicativo do SoundCloud. Para um estudante de jornalismo, sem direção e sem dinheiro, eu abria ali um cardápio cheio de pautas.

As plataformas de streamings facilitaram a vida do amante da música. Toda aquela prateleira de vinis, disquetes e CD’s que decorava o lar do entusiasta até o final da década passada agora ocupa menos espaço, economiza mais tempo mecânico e expande o horizonte de forma inimaginável. Ao invés de se levantar e caminhar até o toca discos, para que seus ouvidos acompanhem o seu gosto musical imediato, um ALT/TAB ou um deslize de dedos se tornou mais do que suficiente para viajar entre os gêneros musicais. Diante do cotidiano repleto de responsabilidades, também não atrapalha a atividade principal que estejamos desempenhando. 

Contudo, o horizonte que se adjetiva nesse novo hábito é mais limitado do que se parece. Assim como as antigas gravadoras e distribuidoras, as plataformas de streaming no seu celular também são regadas de burocracia, restringindo o leque de artistas que realmente vão cantar no seu ouvido a partir de algoritmos e interesses do capital. E é aí que entra o SoundCloud

É impossível fugir da Beyoncé. É impossível fugir do Drake. É impossível fugir do ciclo capitalista de, agora com mais facilidade, continuar ouvindo o que a indústria jogava e continuará a jogar na nossa cara. Então, como vou conhecer o trabalho do seu amigo de infância, que produz suas músicas dentro do quarto, sem investidores e sem contatos na grande mídia? Como você vai conhecer o trabalho do Alberto Araújo? 

- Boa tarde.

 - Opa, boa tarde. Vou lá no 1205. No Alberto.

- Pode subir.

Eu deveria dizer que não escrevo às 23h de um domingo um texto publicitário para uma empresa de streaming de músicas. Ou para um amigo que montou um estúdio dentro de casa. Porém, são personagens intrínsecos. Concomitante à minha chegada física ao décimo segundo andar de um prédio clássico da Avenida Prudente de Morais, em Belo Horizonte, também chegava ao backstage do que consumimos com apenas um toque no touch do celular no nosso dia-a-dia. 

Há uns bons 7 anos, eu entro na casa do Beto sem bater. A porta nunca está trancada - após essa reportagem, talvez comece a estar - e o apartamento nunca está vazio. Recebido pelo Cid, o shih tzu guardião da família - embora velho e cegueta - , caminhei em direção à sala de estar que centraliza a entrada para os outros quartos. A sala é uma zona de batalha entre poluições sonoras. Comprimento a mãe do meu amigo deitada no sofá. Cidinha ouvia a orquestra sinfônica que passava na televisão em um ouvido e a tremedeira dos graves saindo do quarto fechado do filho no outro. O som do baixo que saía do home studio do Beto soava como um animal selvagem, faminto e se debatendo das correntes. Após um como foi o seu dia, eu ganhava meu alvará para adentrar na jaula do monstro.

A maçaneta da porta vibrava, abri-la era como sair de um banheiro de uma festa. O quarto é só um quarto. Na primeira passada de olhos, uma cama de solteiro e uma escrivaninha à janela com o desktop do computador. Nada diferente do que se vê em um apartamento de classe média baixa brasileiro. No entanto, a mágica de um grande estúdio se escondia nas mobílias mais mundanas do nosso cotidiano.

Sentados na cama, alguns personagens. Naquele momento, dois homens e uma mulher, mas que pouco importam a caracterização, porque a cada dia mudam de rostos, gênero e classe social. O único inerente ao espaço se sentava na cadeira de escritório, em frente ao teclado. Comprimentei os desconhecidos com alguns jargões amigáveis.

- Prazer, milorde. Rafael.

- Opa, aqui é o MC Fulaninho. Essa é a minha companheira de rima e aquele ali é o nosso empresário.

Nesse contexto, empresário é mais uma incorporação fictícia. No máximo, um amigo à disposição para administrar as redes sociais de uma carreira igualmente retirada de um livro de fantasia. Me dirigi até a cadeira do Beto e dei dois tapas em suas costas avisando a minha chegada. Girou em minha direção, com a mesma postura torta que compunha sua estética desleixada. 

 - Colé Mafrinha, tô aplicando os manos numas produções que eu fiz ontem. Vai um cigarro? 

- Eaí Tibé. Tenho o meu careta aqui. Mostra aí.

Tibé é seu nome artístico. Uns anos atrás era Tobé, um anagrama de seu apelido carinhoso, mas mudou para evitar as constantes piadas infantis com toba, gíria dos jovens para bunda. Tibé fuma cigarro de palha e não fica muito feliz que brinquem com sua masculinidade. 

O homem em frente ao computador mostrou suas produções instrumentais por meia hora, todas postadas em seu perfil no SoundCloud. O site é uma rede social gratuita, sem as burocracias de postagem de plataformas como o Spotify e o Deezer, por exemplo. Onze anos depois de sua criação, o SoundCloud foi o berço de inúmeros subgêneros do Rap que hoje estão nos topos das paradas da Billboard. Para artistas independentes como Beto, que agora passaremos a chamar de Tibé, é a seleção de base do time contemporâneo do Hip-Hop. Peneira para um sucesso idealista na indústria musical.

Me sentei ao seu lado em uma cadeira de madeira que provavelmente está desfalcando a mesa de jantar. Seus cabelos pareciam nunca terem sido penteados, os cachos já estavam sebosos e seu rosto estava de acordo com os padrões brancos que se encontra nas novelas televisivas, com algumas marcas de olheiras. Palavras demais só para dizer que é um homem bonito. Magro, porém com músculos definidos, resultado de um corpo que já foi saudável e hoje, de forma superficial, ainda resiste aos maus hábitos. 

Como todas as outras vezes em que o acompanhei trabalhando, tive que intervir na seu enrolação. Tecnicamente, é um profissional. Fez cursos e tem experiência em gravação, produção e canto. Contudo, prorroga bastante para dar atenção aos seus clientes. Usei minha melhor estratégia para impor alguma disciplina e me dirigi aos personagens ansiosos sentados na cama.

- Eaí, qual é a do trampo de vocês? Vão gravar um som hoje?

- Estamos começando agora, somos da Zona Norte. Vamos gravar duas músicas para postar no SoundCloud e ver se estoura.

Tibé notou a movimentação e também se virou para os artistas entusiasmados. Fechou as abas da internet e abriu o software de gravação. Se levantou em direção ao armário e revelou o truque de mágica.

O quarto, que antes era só um quarto, virou um home studio em apenas uma ação. Em meio às roupas dependuradas e lençóis enrolados, o armário se abria para a Nárnia da produção musical caseira. O microfone ficava preso em uma das prateleiras, na altura média de um ser humano. Os fios que saem do mic se conectam a um aparelho conversor ao lado do desktop, do outro lado do estúdio. Tibé buscou água para aliviar as cordas vocais dos seus clientes, acendeu um baseado e revisou com eles a letra e a batida escolhida para a música. Já era fim de tarde. 

A janela era disposta para uma avenida movimentada da cidade, então algumas medidas tinham que ser tomadas para a isolação de som. Fechadas, a fumaça no quarto começava a sufocar e esquentar o pequeno estúdio. Quem fosse gravar entrava, literalmente, dentro do armário. As portas do móvel conseguiam se fechar deixando um pequeno cubículo oco, onde ficaria o rapper da vez. A dupla isolação também não adiantava muito caso houvesse qualquer barulho de dentro da casa. Assim, brincávamos de estátua durante os segundos em que os artistas cantavam.

Os protagonistas da música, mas coadjuvantes desse texto, colocavam um grande fone e esperavam o sinal positivo de Tibé para soltarem a voz. Eu permanecia sentado de pernas cruzadas perto de um cinzeiro, dando alguns pitacos quando a pergunta me era dirigida.

- Talvez eu possa cantar em um tom mais agudo, daí a gente joga uma gravação por cima da outra.

- Não sei não, acho que vai ficar muito ruído. Dá pra cantar uma vez só e otimizar pro som ficar mais limpo.

- Ok, vou tentar aqui.

De novo e de novo. Na maioria das vezes, menos de um minuto da música que ouvimos em casa demoram horas para ficarem prontos. Durante a gravação, o vizinho do andar de cima começou a - imagino eu - martelar um prego sem parar. Esperamos uns vinte minutos até que a interferência cessasse. Por volta das oito horas da noite, nossos personagens sem rostos se despediam. Agradeceram o serviço prestado, apertando a mão de Tibé com a quantia de dinheiro combinada. 

Pedimos uma pizza e conversamos um pouco do usual. Além de produtor, gravando e mixando o trabalho de outros, Tibé também faz todo o processo de sua própria arte. Conversamos sobre música e sobre os princípios herméticos que guiam o lírico dele como rapper. Me mostrou suas músicas novas enquanto comíamos na mesma escrivaninha em que tirava seu sustento financeiro. Por sermos velhos amigos, eu voltava a chamá-lo de Beto na medida em que dávamos mais risadas. 

De barriga cheia, pediu licença para terminar o trabalho do dia. Com grandes fones de ouvido, organizava as gravações no software. A mixagem e masterização é o trabalho braçal e criativo mais subestimado de uma música, principalmente porque o ouvinte casual nunca acompanhou o processo interminável que é a engenharia de som. Beto edita a música crua - que, sinceramente, não soava muito bem - e a transforma naquilo que consumimos diariamente. O pagamento pelo serviço começa a fazer mais sentido. 

De quinze em quinze minutos ele se virava para mim e mostrava o progresso. Olhando para a tela do computador, eu me perguntava como aquela pintura abstrata conseguia impactar tanto no produto final, cada vez mais refinado. Tinha de fato um monstro dentro daquela jaula. Perto da meia noite, sua mãe bateu na porta. 

- O síndico mandou uma intimação. É pra você parar de trazer favelado pro prédio. 

 -De novo, mãe? Manda ele ir a merda. Racista.

- Depois a gente conversa. 

O clima ficou esquisito, fui embora lá pelas uma da matina. Continuei acompanhando ele por Skype até umas três e meia, quando finalmente havia acabado de trabalhar. Tibé se deitou na mesma cama em que se sentavam seus clientes. Na mesma cama que seus outros clientes iriam se sentar no dia seguinte. De acordo com um dado de 2014, são mais de 79 mil uploads de música pelo SoundCloud por minuto. Haja Beto's por aí. 

Acordei no dia seguinte com o link para a música gravada no dia anterior. Ele acordou com o interfone tocando para receber mais trabalho em seu quarto. Divulguei nas redes sociais como me pediu. Existem pessoas por trás dos algoritmos e elas tomam música no café da manhã.


Reportagem por Rafael Mafra @mafravillainy

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