Mariah Carey e a junção do rap com o R&B/Pop nos anos 90

by - 18 agosto


O ano é 2008. Você baixa músicas no Ares — recebendo de presente um monte de pornô e vírus pro seu computador — para passar pro seu MP3 depois de claro, comprar umas pilhas para ele funcionar. ‘Lonely’ do Akon e ‘Lollipop’ do Lil Wayne estão na sua pasta. A MTV ainda passava clipes e você era feliz apesar de que na época Black Eyed Peas tocava em todo o lugar e convenhamos, era uma merda. 

Se você tem mais de dezesseis anos provavelmente deve se lembrar do clipe de ‘Dilemma’ do Nelly com a Kelly Rowland passando quase todo dia na MixTV (a música foi lançada em 2002 mas os hits dos Estados Unidos sempre chegavam aqui um pouco depois antes da internet tomar conta de nossa vida inteira). Os versos cafonas de Nelly somados com uma voz feminina dócil e um refrão grudento e melódico fez de ‘Dilemma’ um dos singles mais vendidos do ano ao redor do mundo. 

A fórmula “rapper + cantora de R&B” de ‘Dilemma’ foi usada inúmeras vezes no começo dos anos 2000, por exemplo, a esquecida Ashanti que encontrou sucesso na época devido a suas parcerias bem sucedidas com o Ja Rule em ‘Always On Time’. Bow Wow com Ciara em 'Like You’, ‘Crazy In Love’, de Beyoncé e Jay-Z, ‘American Boy’, de Estelle e Kanye West, Rihanna e T.I em ‘Live Your Life’ e uma lista infinita de músicas que estouraram no early 2000s



A maioria dos hits da época seguiam um método muito simples: coloque um rapper que saiba falar de amor e relacionamentos sem muitos palavrões, uma cantora tentando expandir a carreira nas estações de rádio, um instrumental muito bem produzido geralmente feito por Jermaine Dupri ou Timbaland e um refrão tão chiclete que nem dez anos sem ouvir o maldito som você consegue esquecer a melodia. Esse modelo ganhou nome próprio por volta da década de noventa, sendo chamado de ‘pop-rap’ ou ‘hip-pop’.

De acordo com o AllMusic, o pop-rap é um “casamento de beats de hip-hop e rap com fortes refrões melódicos que costumam ser uma parte de uma música pop. O pop-rap tende a ser menos agressivo e liricamente menos complexo do que a maioria do hip-hop de rua”. Resumidamente, o pop-rap é uma música de estrutura pop — a música pop se refere ao popular, ou seja, ao que pode atingir o gosto de um maior número de pessoas comercialmente com retorno financeiro em forma de vendas de singles, streams etc. O pop é totalmente voltado ao sucesso comercial mundial e tende a ter letras simples e refrões memoráveis — que combina elementos do rap, seja através de rappers que participam diretamente da música através de featurings ou de elementos no beat, como a inclusão de muitos 808s e sintetizadores.

Mas é como minha mãe sempre diz: nada é tão novo quanto parece. 

Em 1981, ‘Rapture’ da banda Blondie foi a primeira música contendo versos de rap (versos bem ruins aliás) a atingir a primeira posição na Billboard Hot 100. Já em 1985, LL Cool J se tornou o primeiro rapper a fundir rap com pop quando lançou seu primeiro álbum ‘Radio’, contendo o single ‘I Can’t Live Without My Radio’, considerado pela MTV como “um dos primeiros hits de pop-rap”. O álbum vendeu mais de 500 mil cópias nos Estados Unidos e fez de LL Cool J o primeiro rapper a receber o título de ‘pop rapper’. 



O sucesso de LL Cool J prosseguiu até 1987 quando ele lançou uma balada romântica misturada com rap chamada ‘I Need Love’, que alcançou o primeiro lugar na Hot 100. Essa ‘wave’ de rap romântico para tocar em rádios pop, vender discos e expandir a cultura do hip-hop no mainstream resultou em outros artistas aderindo o pop-rap em músicas, desde Beastie Boys com ‘Fight For Your Right’ até RUN-DMC na faixa ‘Walk This Way.

MC Hammer, Salt-N-Peppa e até mesmo Will Smith na duo DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince atingiram sucesso comercial — menos MC Hammer porque depois de ‘U Can’t Touch This’ desertaram a carreira do cara igual fizeram com o Gudda Gudda em 2009 depois de ‘Bed Rock’ — seguindo a estrutura de músicas pop com elementos do hip-hop no início dos anos noventa. 

Somente em 1995 o pop-rap adquiriu um tamanho gigantesco nos EUA quando Mariah Carey se juntou com Ol’ Dirty Bastard no remix do hit ‘Fantasy’, produzido por Diddy. Se você franzir o cenho e se perguntar o que uma coroa como a Mariah Carey tem a ver com a chegada do rap no topo das paradas americanas, sinto em lhe dizer: tem tudo a ver. 



“O remix de ‘Fantasy’ serviu de modelo para o que pop se tornou” disse John Norris, ex correspondente da MTV nos anos noventa. “É quase obrigatório hoje em dia as músicas pop terem elementos de hip-hop. Esses elementos são quase uma exigência para entrarem nas rádios pop hoje [...] mas conforme o formato se tornou mais popular as colaborações que nós vemos hoje não são tão inesperadas”.

Da Brat, rapper e amiga de Mariah disse que “as pessoas que queriam que ela fosse uma artista tipo a Celine Dion ficaram assustados”. A própria Mariah se manifestou sobre como a gravadora e seu ex marido cuzão não queriam ela se envolvendo musicalmente com rappers: “As gravadoras não entendiam minhas colaborações com artistas e produtores de hip-hop, como ‘Fantasy’ com O.D.B ou ‘Heartbreaker’ com Jay-Z. Agora qualquer um iria se matar para ter uma música com o Jay-Z”.



Carey ficou famosa por suas baladas românticas com diversos beltings difíceis, aqueles gritinhos de apito inconfundíveis chamados de whistle notes, melodias incrivelmente bem elaboradas e harmonias complexas. Ela foi a artista feminina mais bem sucedida dos anos noventa — com mais de 140 milhões de álbuns vendidos somente naquela década — mas acima de tudo sempre admitiu ser grande fã do hip-hop e mesmo sendo rigidamente controlada pela gravadora e por seu ex marido/empresário abusivo Tommy Mottola, Mariah sempre tentou incluir suas influências em seus projetos. 

No mesmo ano do lançamento de ‘Fantasy’ com O.D.B, Mariah começou a trabalhar com produtores de rap para o álbum ‘Daydream’ e passou a ganhar mais independência na direção na qual ela queria levar sua carreira. ‘Long Ago’ foi uma das faixas do LP produzida por Jermaine Dupri cujo instrumental é nitidamente influenciado pelo boom bap nova iorquino dos anos noventa. Até o New York Times reconheceu o território de R&B/rap em que Mariah queria entrar, chamando o álbum de “pop-soul com sabor de gospel que se mistura com o hip-hop.”

Ao contrário de outras cantoras que estavam surgindo como Aaliyah e Brandy — que desde o começo de suas carreiras sempre foram artistas de R&B  Mariah estava na categoria do pop, dance e soul e era constantemente comparada com Whitney Houston ou Toni Braxton. Havia toda aquela imagem de ‘cantora pop’ que a gravadora queria que ela tivesse e na década de noventa a última coisa que esperavam era ver uma artista feminina da magnitude de sucesso mundial como ela se tornar tão próxima do rap numa época onde o próprio hip-hop ainda estava lutando pelo seu espaço no mainstream. 

Em meio a transição de mudar de gravadora em 1997, Mariah trocou de vez as baladas melosas por R&B contemporâneo e hip-hop. O álbum ‘Butterfly’ serviria de blueprint para artistas femininas que iriam aparecer no começo dos anos 2000. 

Um dos singles do álbum foi ‘Breakdown’ com participação de Bone Thugs-N-Harmony e provavelmente é uma das melhores músicas da carreira dela. ‘The Roof’ sampleia o clássico ‘Shook Ones’ do Mobb Deep e mostra mais uma vez o quanto o senso de melodia e flow de Mariah é insano. O cover de ‘The Beautiful Ones’ com participação de Dru Hill e ‘Honey’ produzido por Diddy também são pontos altos. 

Vinte anos após o lançamento de ‘Butterfly’ o álbum ainda soa como um projeto recente e grande parte se deve a mistura de rap com R&B/Pop que foi tão presente nos últimos anos e que é até hoje. 



Por volta de 2002 o formato "rapper + cantora de R&B" popularizado na década passada se tornou tão popular que o Grammy chegou a criar a categoria ‘Melhor Colaboração de Rap’. 

Atualmente é muito mais nítido perceber que a linha que separa o rap do R&B é quase invisível e, por incrível que pareça, foi o controverso hit de Mariah com Ol' Dirty Bastard há vinte anos que ajudou a trilhar um caminho para que o rap fosse disseminado no mainstream através do R&B/Pop da forma que ele é hoje.


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