CRÍTICA: Yung Buda - Halloween O Ano Todo

by - 23 agosto



Eu sei que tô bem atrasado, mas na real a ideia era que essas reviews saíssem em formato de vídeo. Falhei, admito. Quem sabe algum dia. Todavia, taí um pouco da minha opinião que ninguém pediu sobre alguns trampos mais consolidados da cena nacional deste ano. Vamos começar com o meu possivelmente favorito.

Se quiser ouvir enquanto lê, acho que vale a pena (ou não).


Yung Buda (pronuncia-se Ian Bura), trapper de Jundiaí, São Paulo, e membro do coletivo SoundFoodGang, já havia deixado algumas marcas de sua música antes dessa mixtape. Em 2017, com o lançamento da mixtape 'Músicas para Drift', o artista já moldava sua estética no cenário, regado à Drill e fortes influências da cultura pop.


Drill e cultura pop. Vago, né? Porém acredito que sejam conceitos chave para adentrar no universo do rapper. Se resgatarmos uma das tracks de sua prévia mixtape, Motorola V3 (que inclusive servirá também para outra análise mais adiante), fica nítido a originalidade do Buda ao traduzir tal subgênero do Trap de uma forma mais atual e adequada ao seu contexto.


Embora haja controvérsia se existe alguma diferença sonora do Drill para o Trap habitual, além de que o primeiro é geograficamente nascido de Chicago, eu gosto de apreciar a atmosfera mais obscura e grimier, simplista e visceral de sua bateria; mesmo que baseado em absolutamente nada além do meu ouvido. Nesse quesito, Yung Buda altera bruscamente o elemento temático da maioria das músicas do Drill, não nos personagens e objetos em si, mas em sua perspectiva.


Eu diria que ele faz o oposto do que seria o Realismo Mágico, movimento literário famoso na Colômbia, esse que reescreve os mitos clássicos com uma visão mundana. Buda, tanto em 'Músicas para Drift' quanto em 'Halloween o Ano Todo', faz uma releitura do conteúdo sobre carros e armas de Chicago e transpõe essa vivência para uma pele mais referencial, utilizando da cultura pop (filmes, animações, etc) para contar histórias reais com estéticas fictícias.


Em muitas das vezes, confunde-se saudosismo e crítica do artista em relação à esses produtos culturais. Em Motorola V3, ele satiriza os comportamentos e consumos culturais da sociedade burguesa, brincando com a denominação de cult. Contudo, o próprio álbum visual de sua nova mixtape seria o próximo de um AMV (Anime Music Video) do filme Donnie Darko, talvez uma das obras mais famosas entre os adolescentes cinéfilos cults. Sinceramente, não sei até onde é uma brincadeira, ou se ele realmente gosta desse filme, mas é divertido pensar sobre.



Além de tudo, sabendo disso e ouvindo o scratch de Racionais MC’s já na primeira faixa, Halloween O Ano Todo é uma aproximação importante do Trap com o Rap de Mensagem no Brasil. Sim, soou estranho, mas não desiste de mim. Talvez faça sentido.


Embora pareça um contraste de início, é imprescindível entender que o sentimento de ser negro no brasil, passando desde o contexto do preconceito à segregação espacial, racismo, não necessariamente precisa ser contada com a mesma narrativa dos anos 90. Esta que raramente mostrava versatilidade na abordagem normativa em relação à sociedade, temas nos quais os brancos, por acesso fácil aos meios de produção e distribuição musical, menor preocupação social, vinham fazendo. Gostar de animes ou de produtos culturais no geral não te fazem perder sua identidade social, pelo contrário. Em meio à uma sociedade intolerante, torna-se também um protesto aos catálogos que se engavetaram os limites do discurso destes artistas.


Já na primeira faixa, Você Vale O Que Tem Parte 4, o sample de Vida Loka (Parte II) denuncia o tema central tratado no decorrer do trampo, porém, de um olhar aparentemente distinto: o dia-a-dia do homem negro.


Ainda nela, a minha solitária crítica negativa. E nem é sobre a música em si, mas uma questão que se repete do Músicas Para Drift e que ainda me incomoda.



Recorte do verso de Você Vale O Que Tem Parte 4, retirado do Genius


Não é de agora que ele traz rimas viscerais e até um pouco gráficas demais, as linhas sobre autoflagelação nos trabalhos passados já me deixavam meio desanimado. Contudo, é de cada um. De forma alguma estragou a minha experiência por inteiro, e duvido que estrague a de muitas pessoas. Mas por cuidado aos gatilhos de saúde mental que muitos tem, aí vem um trigger warning. A responsabilidade não é do músico (ou talvez seja, mas outra discussão), só um alerta de consumidor para consumidor.


Recorte do verso de Motorola V3, retirado do Genius


A segunda track da mixtape, Anbu, explicita muito bem tal tradução do real contada a partir de influências de outras narrativas. “A Anbu, abreviação de Ansatsu Senjutsu Tokushu Butai, que literalmente significa “Esquadrão Especial de Assassinato e Tática” é um Esquadrão do anime Naruto, onde tal grupo realiza missões especiais de alto nível, tais como assassinatos e torturas. A Anbu geralmente trabalha em equipes formadas com os requisitos da missão, garantindo o máximo de sucesso. Nessa track podemos ver Yung Buda no papel de um dos integrantes de uma Anbu contemporânea, na Zona Oeste, de balaclava e 9mm.” explicação co-assinada pelo próprio Yung Buda no Genius. Ou seja, não só referencia Naruto e outros animes com método comparativo e sem intenção igual observamos na tendência atual (não vou citar nomes, mas é provável que seu amigo trapper já tenha feito uma rima descartável se comparando à algum personagem de anime). Buda traz implicitamente o contexto da obra, através do título quase que exclusivamente, e projeta sua própria vivência como aproximação.


Já em ‘Sozinho no Touge’, embora não conte com a participação do niLL, é quase que a própria versão do Buda do álbum Regina. Assim como seu amigo de selo, retrata relações interpessoais muito atuais, 'pós-modernas' para os acadêmicos, mas definitivamente não soa chato como um. Longe do pedantismo, em cima de instrumentais não datados que facilmente fariam sentido como trilha sonora de um filme sci-fi, Buda inclui os aspectos tecnológicos e midiáticos que rodeiam nossa vida cotidiana. Ah, e com seu toque de vilão, como sempre.


Vilão e amante de garotas colegiais. Aham, essa garota meio Sailor Moon que veio à sua cabeça mesmo. ‘Colegiais’ é bem criativa ao falar de relações mais carnais com essa estética japonesa, gótica. Chinv e Buda bem como sempre. O flow do Buda é impactante durante toda a obra.


Chegando às finais do trampo, Akatsuki De Vila Parte 2 sintetiza todos os pontos fortes em que passamos até agora, além da consistência do artista. Barras, musicalidade, levada. A introdução do som que antecipa a releitura do refrão de Akatsuki De Vila, hit do ano passado, me arrepia. A participação do Igu, muito esperada pelos fãs devido à interseção dos dois rappers nas temáticas orientais, faz jus à expectativa. Por fim, com muito humor e aproximação do real à ficção, assim como o Buda no resto da mixtape, niLL finaliza a música da melhor forma possível.


Na última do Halloween O Ano Todo, Buda traz uma das melhores analogias em verso sobre cigarro dos últimos tempos (me senti representado). Após 14 minutos vestindo sua balaclava no mosh pit, jutsus secretos e garotas colegiais, ‘Pentes Livres’ finaliza a mixtape com maestria.

Foto promocional com clique do Chinv


Ainda não sei se curto muito a ideia de dar uma nota pra essas críticas que sairão, mas já dando por segurança: Halloween O Ano Todo, como mixtape, é um 9/10 com tranquilidade para os amantes do Trap. Até porque mesmo sendo uma, consegue trabalhar conceitos fortes no meu ponto de vista.

Me xinguem mas agradeçam ao Ian Bura, até.

Crítica por Rafael Mafra @mafravillainy

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