A cultura de playlist vai dar um fim nos álbuns? Coluna V!$H

by - 09 abril


As plataformas de música digital diminuíram as vendas de obras completas, mas é uma via de mão dupla, já que por temática, ela apresenta e divulga novos artistas o tempo todo. De acordo com a Billboard, o álbum DAMN., do Kendrick Lamar, teve dois terços da venda em função da compra de faixas avulsas e streaming. Mesmo que você não conheça o último álbum de determinado artista, ele pode estar na sua playlist de estudar, ou de se exercitar, ou de sexo, ou seja lá de qual playlist estranha você tenha no celular.
Talvez seja essa a beleza desse conflito. Provavelmente não ouviremos o trabalho do artista no contexto em que ele criou, com o signo que ele conceituou. Esse trabalho, porém, será ressignificado ao lado de projetos que talvez nunca teríamos contato se não tivéssemos o hábito de montar, procurar e compartilhar playlists.
Estamos vivenciando o fim do mundo. Todos os dias alguém nos fala que algo vai acabar, e que isso é um absurdo. Já fui muito conservador com minha relação de consumo de música e não queria deixar o disco físico morrer. Hoje, vejo pessoas que não querem que o disco, como conceito, desapareça.
Cá entre nós, ouvir streaming nunca me impossibilitou de ter a cópia física que eu quero. É por isso que talvez eu não me preocupe como antes. Até o vinil, que segundo os pessimistas não sobreviveria por muito tempo com as novas tecnologias, ainda é produzido em certa escala.
Contudo, assim como nossos avós falavam do fim dos vinis, do cassete, e agora do CD, nós ainda ouvimos música. Será que o conceito de álbum está ameaçado pela era das playlists?
De certa forma, o veículo só muda a ressignificação das faixas. Reorganizar artistas diferentes em uma playlist não é algo novo. O rádio já faz isso, mas prefiro creditar o Hip-Hop e ao DIY ('do it yourself', um movimento do punk mas que se expressa muito bem hoje no rap) pela acessibilidade dos inúmeros compilados de tapes ao público (principalmente o SoundCloud), uma vez que as emissoras sempre foram capitalizadas e inacessíveis para artistas independentes. Embora essa reorganização de faixas ter sido institucionalizado pelos serviços de streaming, ela continua tendo um grande papel desempenhado pelos usuários das ferramentas. Nós ainda fazemos nossas próprias playlists, mesmo sabendo que tem gente sendo paga pra isso.
Escutar álbuns por completo, muitas vezes, serve para que sejam selecionadas faixas específicas.   Em uma enquete com aproximadamente mil usuários do twitter, 40% preferem ouvir álbuns completos, enquanto outros 40% ouvem apenas para separar as músicas preferidas e colocar na playlist. Os 20% restantes praticamente só ouvem playlists.
Com a falta de interesse do ouvinte em se envolver com música e o processo digital, o que divulga vários artistas mas negligencia outros, cabe a nós valorizar o esforço do músico, seu processo criativo e a intenção por trás de cada obra.
O próprio conceito de mixtape é uma estratégia esperta por parte dos artistas que facilitam o uso das faixas para compor signos fora do projeto. A mixtape geralmente não tem uma preocupação conceitual e, às vezes, nem há conexão ou coesão sonora entre as faixas.
A relação entre mixtape e playlist é descaradamente explicitada no último trampo do Drake. Essencialmente uma mixtape, o rapper canadense auto denominou seu projeto como playlist. Sem dúvidas uma boa estratégia de marketing, uma vez que a palavra é popular e consegue sintetizar a mesma ideia central de uma mixtape. Tirando, é claro, que é um compilado de músicas inéditas de apenas um artista, organizadas pelo próprio, o que desbancaria o nome dado ao projeto.


Será que os artistas estão observando essa tendência?
Embora eu não duvide do poder de influência do Drake na possível ressignificação do conceito de playlist e na popularização das mixtapes, não acredito que isso seja uma ameaça aos bons e velhos álbuns. Os artistas usarão dessas estruturas musicais, seja para não desperdiçar gravações, seja para continuar em contato constante com seu público, porém, a maioria não perderá a excentricidade a ponto de parar de produzir trabalhos conceituais e bem construídos. Não é porque a significação não está mais na mão do artista que ele deixará de tentar passar a mensagem que quer.

Pra finalizar, queria agradecer meu amigo Angelo Dias, escritor, que revisou e me ajudou a amarrar as ideias no texto. Um de seus textos, 'Escute álbuns do início ao fim', foi uma das maiores motivações dessa coluna, então dá uma lida nele também:
https://goo.gl/JDhJCm
E claro, de tanto repetir a palavra playlist, eu e a equipe da V!$H Midia não poderíamos deixar de montar uma pra vocês. Se liga:


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